A ideologia do sucesso
Como o sucesso se tornou uma virtude
As perguntas que você faz determinam as respostas que você recebe.
É uma afirmação óbvia e até fico constrangido de escrevê-la desse jeito, como se fosse o lema da bandeira do Brasil, desperdiçando o primeiro parágrafo.
Mas a verdade é que qualquer copywriter ou sedutor profissional poderia confirmar para você que é possível a partir de uma sequência de perguntas levar alguém a acreditar (e comprar) qualquer coisa. Até uma ideia, a coisa mais desvalorizada do mundo.
E dentre as ideias que chamam a minha atenção hoje nada me espanta mais do que a ideia do sucesso. Do modo como ela é enquadrada, a pergunta é quase sempre “COMO eu me torno bem-sucedido”? Ou “COMO eu obtenho sucesso?”.
Eu nunca ouvi alguém perguntar “o que é sucesso”? ou “É possível ensinar alguém a ter sucesso”? Ou até se ela deveria se preocupar com isso.
Essa pergunta já indicaria em muitos círculos que você não vai ter nenhum sucesso. Porque tanto a resposta quanto o desejo disso são evidentes.
Para turma do terceiro ano não nos zoar, pulamos de terno e sapato dentro da piscina do sucesso sem mais perguntas.
Mas nem sempre foi assim.
Historicamente, a palavra “sucesso” quer dizer apenas um “resultado”. Tanto que há acontecimentos bem e mal-sucedidos; bons e maus-sucessos. No português antigo, quer dizer, 30 anos atrás, era possível dizer que “tal projeto foi muito mal-sucedido”.
O sucesso era aí algo que você experimentava depois que fazia alguma coisa. Poderia ser bom, poderia ser ruim. Era só algo que “acontecia”, como indica o verbo “suceder”.
Hoje não. Hoje o sucesso é algo que você se torna e é sempre positivo. O sucesso se tornou uma virtude a ser buscada como a virtude da coragem e da honestidade. Ele deixou de ser o resultado de uma ação para se tornar um modo de ser.
Isso por si só já indica que o sucesso se tornou uma ideologia, que, segundo René Girard, “é a ideia de que tudo ou é bom ou é ruim”. O sucesso se tornou a ideologia de que você pode ser uma pessoa melhor se tiver sucesso.
O sentimento de “fracasso” que antes poderia ser apenas atribuído a uma ação que deu errado, o popular “vacilo”, como quando você se esquece de pagar uma conta ou perde o horário do ônibus, agora tem um sentido existencial: a pessoa É uma fracassada.
Ela deu errado.
Pense em como é óbvio o que estou dizendo: quem acha que deu errado é porque sabe como é dar certo.
Quem deu certo para você? O que é sucesso para você? É o tipo de pergunta que incomoda porque não há uma resposta pronta.
Até então.
Por exemplo, dizem para você “sair da corrida dos ratos” e que você tem que “sair da Matrix”, mas curiosamente para obter todos os benefícios da Matrix, como carros, mansões e viagens de luxo. Nunca mais ter uma preocupação material é o objetivo.
Percebemos que o problema nunca foi a Matrix, mas ser pobre na Matrix.
Você não tem problema com as coisas que os outros sugerem que você deve desejar, mas com a sua incapacidade de comprá-las.
O mesmo, mas diferente
Essa ideologia do sucesso esconde o fato de que ela reforça a comparação com os outros ao mesmo tempo em que defende que você não é melhor do que ninguém por querer o que você quer: você só é diferente.
É uma história difícil de engolir quando você passa a analisar a linguagem que eles usam, como “subir de nível”, que pressupõe que há gente nos andares de cima e gente nos andares de baixo.
Você só precisa ser “você mesmo”, contanto que não seja introvertido, procrastinador, pobre e reclamão. A sua “melhor versão” é quase sempre uma versão igual à do seu mentor de sucesso.
Por exemplo, alguns gurus dizem que a introversão é um problema para se tornar bem-sucedido porque ela vai te impedir de aproveitar diversas oportunidades que um cara-de-pau não deixaria passar.
O introvertido ouve isso e já passa a pensar em como será um fracasso.
O que os gurus deveriam dizer é que se você quer uma oportunidade que exija comunicação contínua, como a deles e como é no Instagram, então sim, será um problema.
Mas não é assim que acontece.
A gente sabe que são os extremos que vendem. E que Deus tenha piedade de quem discordar. O sucesso é sempre bom e quem não concorda é mau, invejoso e feio. Ele critica porque ele não tem resultados e só os resultados importam.
Resultados no nosso meio querem dizer apenas uma coisa: dinheiro.
A fantasia das habilidades e os hábitos fantasiosos
Quase sempre que alguém de sucesso no marketing digital é confrontado por qualquer motivo, bom ou ruim, justo ou injusto, em pouco tempo você vai ouvir “cadê os seus resultados?”. Na prática, o Bernard Arnault, o homem mais rico do mundo é o homem com mais razão do mundo.
E eu não sou contra o dinheiro. Eu mesmo faço parte desse mercado.
Eu sou contra a fantasia de que você vai mudar o seu mindset em 24h e adquirir qualquer coisa valiosa em uma imersão. Normalmente quem ganha com essas imersões e masterminds é quem já tem um bom negócio e pode implementar as sugestões de um jeito rápido e dar depoimentos como: “a frase de fulano mudou o meu jogo. Faturei 400 mil a mais por causa disso”.
Se você é alguém com poucas habilidades e pouco poder para implementá-las, essa frase iria entrar por um ouvido e sair pelo outro. Mesmo que você tivesse percebido, não poderia ter resultados desse calibre. A sua tendência é ficar entre maravilhado pelas possibilidades e ansioso por se livrar das suas limitações.
Eu sou contra essa ideologia porque ela te desvia da única coisa que pode dar alguma vantagem para você no longo prazo: o desenvolvimento das suas habilidades.
Alimentar a fantasia de que há por aí alguma oportunidade só esperando que você a descubra, como uma tesouro enterrado no quintal da sua avó, é como ver pornografia: pode ser legal de assistir, mas não te ajuda a conseguir o negócio real.
Você não pode fugir do esforço real de ser bom em algo.
Até as reclamações que as pessoas fazem contra os cursos são injustas, eu imagino, por causa das promessas exageradas que eles fazem. Mas nenhum curso vai fazer por você a parte que só você pode fazer: praticar. Não é nem um defeito dos cursos, é uma impossibilidade metafísica mesmo. Você é quem precisa abrir o caderninho e escrever.
Mas quem quer saber de realmente dominar um ofício? Algo que leva anos não é sexy.
Queremos saber quais são “os hábitos das pessoas de sucesso” porque assim podemos ser como elas. Poderemos ser felizes, independentes e admirados como elas.
E quais são esses hábitos?
Deixe de reclamar
Trabalhe mais do que ontem.
Você é mais forte do que isso.
Remova todos os obstáculos, incluindo pessoas.
Hábitos comuns levam a resultados comuns
A única competição é você.
A ação positiva alimenta pensamentos positivos.
Trabalhar de modo inteligente supera trabalhar duro
Mentalidade abundante
Mentalidade milionária.
Mentalidade bilionária.
Mentalidade trilionária
O obstáculo é o caminho.
Reprograme seu cérebro e assuma o controle da sua vida.
Você faz o seu próprio destino
O dinheiro não compra felicidade, mas se você tiver mais dinheiro você vai ter uma vida lendária.
Faça o que os outros não querem e você terá o que os outros não têm.
Obsessão é a chave para a excelência.
Tenha várias fontes de renda.
No pain. No gain.
Note que boa parte desses conselhos podem ser encontrados em qualquer Instagram de desenvolvimento pessoal hoje. Algun são puro bom-senso, não é? Quando você trabalha com uma atitude negativa, os resultados tendem a ser piores. Outras podem significar o oposto do que querem dizer, como o hábito da obsessão, que pode ser tanto o céu quanto a ruína de alguém.
Vários são lemas de guerreiros que o empreendedor precisa repetir para si mesmo para suportar a insegurança de empreender e se manter motivado a vencer (na segunda parte dessa newsletter vamos comentar isso em detalhes).
Eu diria até que 90% dessas frases poderia ser apenas “Seja melhor”. “Em que sentido?” Em todos.
Mas então por que alguém pagaria 85 mil dólares para aprender isso com o Tony Robbins?
Porque ele tem um sistema.
Na verdade, quase todos os gurus do sucesso têm um sistema.
O objetivo de todos esses hábitos é geralmente a liberdade financeira e geográfica. Ser livre das limitações do dinheiro e do território.
Em uma palavra: autonomia.
E é disso que vamos falar na próxima newsletter: “Os sonhos de autonomia”.





O pior é ter pessoas cada vez mais novas cagando essas regras, e por serem mais novas, mais arrogantes. Como você disse, basta uma crítica qualquer e você já recebe a famosa pergunta: "e você? Já tem resultados?".