Eu e minhas ferramentas
Sempre fui um ciborgue
Os homens criam as ferramentas, e as ferramentas recriam os homens, disse o padre John Culkin ao Marshall McLuhan.
Eu costumava me preocupar com a distopia tecnocrática de filmes como Blade Runner ou animes como Ghost in the Shell. Principalmente com os ciborgues. Até que percebi que já somos ciborgues. Sempre fomos.
Todas as ferramentas melhoram o ser humano porque aumentam nossas habilidades de fazer coisas humanas. Fabricar e usar ferramentas é um princípio central do que significa ser humano.
Desde os primeiros dias, nossos ancestrais interagiram e criaram tecnologias para navegar melhor em um ambiente que do contrário iria exterminá-lo em segundos. O mundo natural é hostil ao ser humano. Você descobre isso rapidinho quando se vê perdido em uma floresta. A partir do momento em que você tenta criar um “abrigo” já coloca em uso ferramentas para dar uma forma mais humana ao ambiente. Até o Tarzan tinha uma casa na árvore.
O machado corta a madeira melhor do que a sua mão, o arco atinge o inimigo mais longe e mais rápido do que a sua mão e uma cumbuca (NÃO UM BOWL!) pode conter mais água do que você conseguiria com as mãos.
Sem os óculos você ficaria aí, com sua visão turva e natural. Acho que ficou claro que isso também é “tecnologia”.
O interessante é que isso não altera apenas o modo como fazemos as coisas, mas também como pensamos e como nos identificamos.
Qualquer pessoa normal sabe que mente e corpo são distintos apenas intelectualmente (para ficar mais “fácil de entender”), a separação entre nosso corpo e as ferramentas são às vezes impossíveis de discernir.
O piano e o pianista, o pincel e o pintor, o arqueiro e o arco se tornam na ação que caracteriza a sua identidade em uma só coisa.
Claro, depois que o pianista vai para casa, o piano fica no Teatro. Mas aí ele não é mais “pianista”. É um cidadão qualquer. Por isso não é estranho ver pessoas deprimidas quando o instrumento que caracterizava a sua identidade desaparece ou entra em desuso ou desprestígio por qualquer motivo.
O problema maior, no entanto, é o que ocorre quando em vez de a tecnologia expandir e aumentar suas habilidades naturais, ela as atrofia. Pior: impede que habilidades se desenvolvam.
O que acontece quando você terceiriza totalmente sua capacidade de resolver problemas e lembrar as coisas para a tecnologia?
O que acontece com seu cérebro se você colocar tudo o que precisa para reter e lembrar em um sistema de anotações ou em um programa de computador?
Nos anos 2000 era muito comum todo mundo ter uns 10 telefones na cabeça. Tinha papel, mas entre meus amigos ninguém tinha esse hábito. E quer saber? Quando veio o celular, eu não senti nenhuma falta de decorar esses números.
Mas e decorar as poesias? Passagens dos seus livros preferidos? Músicas? Diálogos?
O quanto isso foi afetado pela tecnologia ainda estamos por descobrir, mas os resultados preliminares dizem que não foi nada bom.
Por isso é tão importante escolher conscientemente as ferramentas que você vai usar.
O que eu sempre digo aos meus alunos do Criadoria é: o que você quer ou precisa criar? A partir daí é que você começa a criar seus fluxos de trabalho e estudar as ferramentas.
Essas coisas só se tornam substitutas das nossas habilidades quando permitimos que seja assim. Quando cedemos à pressão do grupo. Se você experimentasse resistir só um pouco a fazer o que todo mundo diz para você fazer e colocar o seu interesse onde o seu coração está, você veria como essa pressão é frágil e como a segurança delas esfarela com sopro mais leve.
Claro, na vida há escolhas que não podemos mais fazer (você não pode mais pagar com moedas de ouro), mas ainda há muito espaço para decidir com intenção sobre o que você quer ou não usar. Sobre qual nova ferramenta você deve implementar ou não.
Tudo isso deve começar com uma curiosidade sobre o que estão lançando, mas deve acabar com a serenidade de quem avalia a utilidade que aquela ferramenta vai trazer para o seu negócio e para sua identidade.
Sim, as ferramentas recriam os homens, mas no final das contas é você quem decide à imagem e semelhança de qual ferramenta você será recriado.
Escolha com sabedoria.


