Meu pai
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Duas décadas atrás eu desci do ônibus na rodoviária da minha cidade e um mendigo fedido e incômodo veio me pedir umas moedas.
Tirei 5 centavos do bolso e estendi a mão com dó e caridade, da mesma forma que damos petiscos aos animais obedientes.
Como eu evitava olhar para cara de gente feia e pedinte, foi só quando ouvi meu nome vindo de uma boca com poucos dentes que vi com surpresa um rosto que eu já conhecia: o mendigo era o meu pai.
Meu pai começou a beber depois de perder um bom emprego numa firma daqui. Meus tios diziam que meu era um cara sempre atrasado – e vocês devem imaginar o meu horror ao ver esse mesmo problema com o relógio em mim. Acontece que em algum momento ele aceitou que jamais teria algo melhor e começou um longo processo de abandono, curtido anos a fio num alambique de desespero. Ninguém nem nenhuma clínica pôde botar esperança (ele fugia) em quem só queria botar um fim.. Meu pai morreu de cirrose e com um telefone para reconhecer o corpo.
Eu não digo isso para que você sinta pena de mim. Quase ninguém sabe disso e, como vocês sabem, eu não costumo compartilhar muito a minha vida na internet. De onde venho, é pusilanimidade falar de problemas sem solução. E faz tanto tempo que não sinto mais nada e hoje consigo ver com clareza mas sem conclusão certas coisas.
As minhas memórias dessa época estão em conservas, como aquelas que você guarda em uma garrafa, preservadas para sempre em álcool, transparentes mas imunes a mudanças.
Digo isso porque o Dia dos Pais para mim foi por anos uma data vazia. Então entendi um dia que “Pais” está no plural e Deus arranja outra forma de colocar outras figuras paternas na sua vida.
Coloca um sogro, um mentor, um filho, um padre, um pastor, um pai solteiro, um professor, um padrasto no meu caminho e de repente os anos que os traças comeram se renovam e recebemos uma força sobrenatural para cumprir nosso dever.
Por isso hoje não tem exercício ou conteúdo “de valor”.
Hoje o exercício é revisar. Revisar significa “ver de novo”.
Você não precisa de novas experiências. Precisa de novos olhos.
Tudo isso é bem cafona, eu sei. Mas às vezes eu quero acreditar mais na sinceridade do brega do que na sofisticação da ironia.
Aproveite hoje para pensar nas pessoas para as quais você está fazendo isso.
Tente pensar na última vez que você fez um grande sacrifício. Ou nas pessoas que dependem de você, que confiaram em você e em como os seus esforços terão sentido nesse novo mundo que você está construindo.
Vai parecer idiota o que vou falar, mas se você não mantiver essa coleção de memórias significativas na sua cabeça, você vai se esquecer e todo esse esforço vai parecer completamente inútil.
Pense no motivo de estar fazendo isso tudo aí, seja lá o que “aí” significa para você.
Eu faço tudo isso para os meus alunos e para a minha família, mas também faço para o Rafael de 20 anos atrás, que sabe exatamente o que significa quando alguém diz que vai largar tudo.




Sensacional! Essa frase "Você não precisa de novas experiências. Precisa de novos olhos." vai seguir comigo, pode ter certeza!
curto e forte! Admiro a profundidade da sua escrita.