O Intelectual de Instagram
Resenha do livro "Contra a vida intelectual" do Ronald Robson
Vai parecer estranho para muitos de vocês o que vou dizer, mas aqui vai: não há muitos livros sobre a influência negativa do intelectual na sociedade.
Há livros sobre a origem deles no Ocidente, como a longa trilogia As Paixões Intelectuais, da Elisabeth Badinter, ou o mais universal porém resumido Sociologia dos Intelectuais do Louis Pinto, que apesar do sobrenome fálico é francês.
Você tem a denúncia divertida e fofoqueira de Paul Johnson em Os Intelectuais, um livro curioso dado que o autor denuncia e desacredita dezenas de escritores e intelectuais de esquerda e de direita por pequenos pecados pessoais enquanto ele mesmo teve uma amante por 11 anos.
Há sempre em alguma edição por aí o clássico Ópio dos Intelectuais do Raymond Aron, um esquerdista expondo as insanidades da esquerda intelectual, ou o livro que mudou a vida de muita gente aqui, inclusive a minha, O Imbecil Coletivo do Olavo de Carvalho, demonstrando que o Brasil também tem seus insanos. Ou ainda livros denunciando o nonsense da ciência, como Imposturas Intelectuais.
Podem parecer muitos para quem lê pouco. Mas livros que podemos colocar numa estante de: “Problemas causados por gente inteligente com boas ou más intenções” são poucos em comparação ao que precisaríamos para explicar quanta desgraça alguém pode fazer depois de alfabetizada.
Sobretudo porque são livros em que apesar dos problemas públicos ou pessoais que os seus autores causaram, eles ainda tinham alguma obra para ficar em pé na estante. A crítica era mais em relação à obra e aos efeitos dessa obra do que qualquer outra coisa.
Uma dessas críticas mais famosas vem de Julien Benda no famoso “A traição dos intelectuais”. “A nossa época”, diz Benda, referindo-se àquela geração de quase um século atrás , “é de fato a era da organização intelectual dos ódios políticos”. Mal sabia ele o quanto estava certo. Do terrorismo nacionalista do Médio Oriente ao fascismo europeu, cada facção tem os seus especialistas sociológicos e políticos, os seus corsários intelectuais, como Herman Hesse os chamava em O Jogo das Contas de Vidro, de universidades e “think tanks” (que eu prefiro chamar de “theft thanks'“). Todos pretendem argumentar a favor de uma causa conveniente para as suas carreiras, não a favor da verdade — que afinal nem existe mesmo.
Os intelectuais que vendem este material são muito mais bem sucedidos do que aqueles que apenas se envolvem no que Benda chama de “busca pela verdade”. Os vendedores ambulantes criam uma audiência, daí desfrutam da celebridade, e da celebridade obtêm riqueza com a qual podem vender mais lixo intelectual. Do lixo se faz o luxo, que no Brasil é a maior prova de sucesso que alguém pode ter na vida.
Não que a política em geral tenha o monopólio da hipocrisia intelectual. O guru dos negócios está indiscutivelmente no topo da lista quando se trata de lixo acadêmico. Eu mesmo, tendo feito dois cursos técnicos e me formado em uma universidade particular, ouvia com frequência que não estávamos lá para resolver problemas abstratos e sem aplicações práticas; mas para resolvermos problemas reais.
Isso fez sentido para mim na época. Só à medida que amadureci é que percebi que o que estávamos fazendo era deixar que outra pessoa — com dinheiro — definisse o que constituía um problema social significativo. A comercialização dos nossos talentos em investigação e análise não nos tornou mais relevantes, apenas mais ricos.
Que as vidas de milhares de funcionários possam ser destruídas, que os seus meios de subsistência sejam eliminados ou que a sua autonomia humana seja reduzida dificilmente passa pela cabeça do “líder de pensamento” empresarial. Sua autoimagem e racionalização são de “avanço do conhecimento” e de tornar o mundo um lugar “economicamente mais eficiente”. O problema não é de prática e erro profissional, mas de ideais.
Os seres humanos sempre foram egocêntricos e carreiristas. Mas eles sabiam quando agiam mal devido aos padrões profissionais dos intelectuais públicos. “Pode-se dizer que, graças aos ‘intelectuais’, a humanidade fez o mal durante dois mil anos, mas honrou o bem”, diz Benda. No mundo de hoje, os vícios intelectuais tornaram-se virtudes. A ambição é a marca essencial de caráter do empresário. Vencer é a única medida de sucesso, não importa quão banal, destrutiva ou dolorosa seja a competição para os outros. O culto ao sucesso, a ideia de que uma conquista na vida seja sempre uma conquista material, por si só lhe conferindo um valor moral agora, é aceito como norma.
Sobretudo no meio online do Instagram, o ideal de que vale tudo se você está ganhando dinheiro e ajudando outra pessoa a fazer o mesmo é tão onipresente que dedicar alguns segundos para considerar essa atitude é impensável e tratada com escárnio ou perda de tempo, a depender do humor do influenciador.
É dentro dessa tradição e contra esse tipo de intelectual que o Ronald Robson se levanta com o seu livro “Contra a vida intelectual”. E se levanta arrastando as cadeiras e fazendo com que ao menos alguns interessados reclamem do inconveniente, atitude rara para um livro publicado em 2024 e para um público tão restrito quanto o da direita católica intelectual do Instagram.
Talvez eu esteja sendo até generoso, porque o Ronald não os considera nem intelectuais para começo de conversa, pois não há nenhuma obra contra a qual podemos nos levantar. Há apenas uma promessa, um hábito, um lifestyle.
O livro parte de uma análise da venda de infoprodutos por supostos intelectuais e segue para o que ele chama de “iniciação à cultura”, dando, senão soluções, orientações e avisos sobre a jornada de quem quer se educar — ainda que nem sempre deixe claro como uma parte conversa com a outra. Sendo assim, o livro é em si mesmo um objeto a ser descoberto com espontaneidade e paciência pelo iniciante ou frustrado com cursos online de cultura. Não é portanto um livro óbvio, mas é um livro fácil.
Aqui vou me concentrar apenas nas duas primeiras partes do livro, que dizem respeito ao mercado digital. As outras três partes são importantes, porque ele demonstra como a espontaneidade da descoberta intelectual pode ser ao menos pensada e sugere alguns caminhos para termos algum prazer nela. Porém, acredito que elas serão engolidas pela polêmica das duas primeiras e serão percebidas como confusas ou inadequadas — propositadamente eu espero. Digo isso com alguma tristeza, mas seria pedir demais que além de um livro brasileiro atual incitar qualquer discussão, incitasse também a reflexão sobre a parte que importa.
Isso impediu muitos de ver que o autor não é contra a venda de cursos online nem contra a venda de material intelectual pelo Instagram nem mesmo contra o uso de qualquer plataforma para sustentar uma atividade intelectual. Algumas pessoas que que leram o livro saíram dele com essa impressão e com a crítica pronta de que “ele critica, mas vende curso na internet”, o que seria uma atitude de um impotente e de um idiota. Ronald Robson não é nenhum dos dois.
Acho importante dizer isso porque muitos parecem ter sido levados mais pela propaganda do livro do que pela leitura do livro, contribuindo tão gratuitamente com os males contra os quais ele escreveu. Os principais são estes:
Esse mal é um problema bem particular do meio católico brasileiro, fruto primeiro da ação do Olavo de Carvalho em popularizar certos temas e depois, é preciso reconhecer, fruto do Ítalo Marsili, que espalhou como uma peste alguns temas que viraram fetiches para essa turma, como temperamentos, camadas da personalidade e outras formas de etiquetagem alheia.
Mesmo nos EUA, o marketing digital não é assim, católico ou não. Para ser bem justo, em nenhum outro lugar do mundo tivemos essa fusão bem verde-e-amarelo de marketing, religião, vida intelectual, maromba e lifestyle feita por pessoas tão sem produção intelectual para sustentar seus cursos. Você tem com marketing, religião, maromba e lifestyle, mas sem vida intelectual (Andrew Tate), marketing e maromba (Alex Hormozi) ou marketing e lifestyle (Iman Gadzhi) ou só vida intelectual (Bishop Baron). Poxa, lá fora você tem até a “Dark Web Intelectual”, em que apesar de desiguais, a maioria desses intelectuais, como Jordan Peterson e Jonathan Haidt, ao menos têm alguns livrinhos para a gente criticar.
Vendo então por esse lado, escrever um livro sobre esse assunto parece atividade de antropólogo holandês interessado nos hábitos de uma tribo perdida da Amazônia. Assim não seria insensato vermos esse estudo curioso de forma pequena e desimportante. O negócio é que esse novo nicho católico produz milhões de reais todos os anos. Para a economia brasileira, não é nada. Para quem viu nela a oportunidade de ganhar uma grana estudando, é tudo. E não são poucos os que vivem dele.
Dito isso, você, como qualquer pessoa normal, pode se perguntar: mas qual é o problema de ganhar dinheiro vendendo curso de vida intelectual?
O problema
Para Ronald, a direita educada na internet deu um novo sentido ao utilitarismo da esquerda: se para esta, a educação tinha um ora revolucionário ora de ascensão social por meio dos diplomas, para aquela a educação hoje tem um propósito edificante e econômico: você se educa para ser rico perante Deus, perante Dante e perante o Santander. Ele explica esse fenômeno de duas formas. A primeira com o que chama de “neopentecostalismo intelectual”.
Ou seja: quanto menos se sabe, mais se quer saber. Até aí tudo bem, mas a pessoa não começa a sua tão cobiçada vida intelectual pela língua que lhe permite ler as letras no papel, mas por pensar apenas no mais puro suco concentrado de cultura, o que produz aqueles textos embolorados de “jovem idoso” que são o equivalente de usar a roupa do avô:
Daí surgem os produtos dedicados a selecionar apenas aquilo que de melhor se produziu segundo a tradição literária ou que de melhor concorda com o rigor moral católico.
Acredito que a crítica em relação aos clubes de leituras de clássicos é no sentido de eles talvez não discutirem o próprio sentido de “clássico”, que em geral parecem sair daquelas listas de “10 livros para ler antes de morrer”, e da escolha dos livros refletirem um professor consciente do seu projeto.
A sua crítica mais interessante e verdadeira é quanto à uniformidade dos livros, sempre os mesmos em todas as estantes, e quanto à falta de contato direto com eles: fala-se muito SOBRE o livro (sua importância histórica, sobretudo), mas não COM o livro, a parte difícil de ler e entender essa obra num conjunto maior de produções literárias da imaginação humana:
De fato, as listas de livros são quase sempre as mesmas, o que sugere a uniformidade da formação intelectual entre os professores bem como o seu gosto pelo design de interiores, autores quase sempre católicos, quase sempre com mau gosto estético e sempre preocupados com a má vontade e moralismo com a qual seu público possa receber uma obra como “Relações Perigosas” ou “Lolita”, mas também da falta de qualquer ousadia em sugerir obras menos conhecidas por medo de perderem entusiasmo desse público (no meu coração das trevas eu suspeito que eles mesmos não possam sugeri-las por não conhecerem ou se interessarem).
Por outro lado, é tão ruim assim que as pessoas leiam apenas os mesmos clássicos?
Eu acho ruim que apenas os professores desses cursos leiam somente esses livros e não criem alternativas para educarem uns aos outros com novas obras e discutirem novos assuntos para em breve formarem novos alunos com cursos avançados. Ainda que muitas pessoas possam ir atrás apenas do “caráter cosmético” da educação, como ele diz logo abaixo, uma boa parte realmente está atrás de alguma educação e a vai obter de forma subótima se for o caso. Eu sinceramente acho melhor do que nada — e às vezes acho que ele prefere nada.
Por isso é difícil, dado o nosso contexto educacional onde já é raro ser amigo de quem leia qualquer coisa, levar a sério a ideia de que seria muito ruim para o Brasil se todo mundo lesse apenas C.S Lewis, cuja obra ficcional me enche o saco, mas cuja obra ensaística é primorosa. Será que não estamos pedindo demais para quem até ontem achavam que ouvir podcast é estudar? Para ele, não é como se esse povo se elevasse para entender a alta cultura, mas o contrário:
O que ele descreve aqui é o famoso “dumbing down”, o emburrecimento cultural a fim de popularizar certos temas convenientes a quem ensina e às vezes a quem aprende com boas ou más intenções. A consequência disso é que “vida intelectual” se torna mais um xibolete, uma forma de uns e outros identificarem a si mesmos e sinalizarem seus status de intelectualoides, segundo Ronald.
É ruim que seja assim, mas quando falamos de “elevar” alguém a qualquer coisa estamos incomodados com o fato de a pessoa não compartilhar do mesmo ideal, do mesmo modelo do que a alta cultura pode fazer de melhor por ela. Se as pessoas grudam nesses intelectuais de Instagram porque eles parecem mais chiques e bem-sucedidos, é compreensível, já que elas associam a sofisticação material à sofisticação intelectual. Só que não seria mais culpa dos verdadeiros intelectuais não saberem como tornar a alta cultura mais interessante? Será que o Béla Tarr não poderia fazer nada para que o seu alto cinema fosse mais conhecido exceto se isolar e não participar?
Seja como for, o Ronald vê aí o nosso conhecido “estetismo”. Falamos muito sobre vida intelectual quando não estamos vivendo nenhuma, assimo como falamos muito sobre sexo quando não estamos fazendo nenhum. Quando um certo hábito deixa de ser espontâneo, ele passa a ser analisado para que possamos recuperá-lo como imitação consciente. É como se as pessoas se esquecessem de como é transar e precisassem aprender vendo pornografia: pode ser até excitante, mas é muito melhor fazer do que assistir. O intelectual de Instagram é um tarado que sofre de disfunção erétil.
Eu me pergunto se existe algo além disso, já que ele cita o trabalho do Rafael Falcón e do João Filho como ilhas de inteligência num mar de lama digital. Será que o Clube de Leitura do Raul Martins, os cursos do Pedro Sette-Câmara e do Rodrigo Gurgel não estão aí para provar que é possível encontrar espontaneidade, rigor intelectual e vontade de fazer dinheiro na mesma pessoa sem necessariamente envilecer a obra?
O segundo conceito é o de teologia da prosperidade intelectual. Assim ele explica:
Para ele, somos ressentidos por não termos recebido na escola a educação que deveríamos, a que prometeram como a única coisa a nos garantir sustento material porque é a faculdade que afinal é a única coisa entre você e o pote de ouro no final da fila de emprego.
Vendo tanta gente de terno e livro atrás com dinheiro, era natural acreditar que recuperando a educação perdida, encontrasse também o tesouro perdido. Um hábito bem antigo e bem brasileiro de que as elites são, além de chiques, cultas — o que Sergio Miceli vai explicar em Intelectuais à Brasileira com a nossa relação republicana e promíscua entre cultura e poder estatal.
Mas se na esquerda ainda havia uma promessa de reparação socioeconômica ao educar todo mundo, dando-lhes acesso universitário irrestrito e facilitado, na direita a ambição é menor:
E conclui:
Para mim, essa analogia entre “abundância intelectual” e “abundância financeira” faz sentido, mas me é totalmente estranha. Não é como se eu não gostasse de dinheiro, nem acho que é o caso do Ronald, mas eu nunca achei que estudando x, fosse ganhar 10x. Eu sempre trabalhei muito e tentei gastar menos do que ganhava. Em um momento, percebi que precisaria de mais do que ganhava para casar, construir uma casa e ter filhos. Então comecei a pensar como poderia fazer isso, já que mudar de desejo estava fora de questão (há sempre duas formas de ficar rico: ganhando mais e querendo menos). E assim fiz o que poderia funcionar no meu caso para ganhar o tal dinheiro. Em nenhum momento pensei que merecia ser rico porque sabia 5 línguas. O que vejo porém é, como o Ronald descreve, as pessoas andam por aí humilhadas por não terem dinheiro e lerem Homero.
Essa humilhação leva à introjeção de alguns preceitos e exemplos históricos sem uma reflexão madura sobre a sua utilidade neste Brasil de 2024, ano do Senhor. As pessoas defendem que a educação moderna é uma droga e só querem saber da paideia grega numa mistura esquisita de helenismo, cristianismo e utilitarismo randiano, segundo Ronald. Esse utilitarismo explica a ideia de “vencer na vida”, que motiva muitos alunos da vida intelectual:
Será que coisas boas não podem surgir das piores motivações? Pergunto porque todo mundo quer que as pessoas ajam segundo “as ideias civis corretas”. Todo mundo gostaria de que as pessoas reciclassem porque é a coisa certa a fazer para preservar esse planeta por mais alguns séculos, não porque você ganha algum dinheiro ou desconto no IRPF.
T.S. Eliot (na verdade, uma frase de sua peça, The Cocktail Party) diz que: “Metade do mal que é causado neste mundo se deve a pessoas que querem se sentir importantes. Elas não pretendem causar mal – mas o mal não lhes interessa. Ou não percebem, ou justificam porque estão absortas na luta interminável para pensarem bem de si mesmos.” Isto é deliciosamente cínico, mas tem um corolário: metade do bem que se faz no mundo também se deve a pessoas que querem se sentir importantes. Motivações impuras podem, nas circunstâncias certas, levar a resultados fantásticos. Passamos muito tempo nos preocupando se o coração das pessoas está no lugar certo; o que importa é o que elas fazem.
Eu não estou feliz com o que fizeram com a teoria das camadas da personalidade do professor Olavo e muito menos com os “temperamentos” — e acho que o Ronald também não. Porém, antes de sua popularização, ela era conhecida por uns três gatos pingados que nem sabiam muito bem como dar continuidade ou aplicação a elas. A deturpação ou rebaixamento da teoria forçou os que realmente entendiam da matéria, como o Francisco Escorsim, a defendê-la e explicá-la melhor para um público agora interessado no poder hermenêutico que ela oferece — e disposto a pagar por isso, já que ninguém vai durar muito fazendo caridade nesse meio. Isso é ruim? Com certeza não é o ideal, mas deveríamos preferir o esoterismo olavético em grupos desérticos de FB?
Quando falo em “popularização”, não estou dizendo para passar aula do COF no Maracanã, estou dizendo que, embora não seja ideal, para viver do seu trabalho intelectual hoje é preciso fazer alguma concessão: fazer marketing com aspectos curiosos em vez de importantes sobre aquele autor, conectar aquela obra a alguma preocupação atual e assim por diante.
Para o autor, talvez tenhamos concedido demais e ao vermos não só a possibilidade mais fácil de pela primeira vez na história da humanidade um intelectual poder viver dos seus interesses ao saber se comunicar com um público interessado, devemos abandonar toda a esperança na internet:
Eu entendo essa desistência porque eu mesmo tenho vontade de desistir às vezes. De fato, não precisar ganhar nenhum dinheiro com seus cursos é a situação ideal para quem quer falar o que quiser do jeito que quiser para quem quiser ouvir. Ele acha “arriscado” demais apostar em alternativas, porque a situação hoje demonstra que é insolúvel. Eu acho bobagem. Ele mesmo teria mais sucesso no YouTube do que no Instagram.
Eu suspeito porém que o Ronald nunca deu aula numa educação pública, exceto faculdade talvez. Não conhece a educação do “Brasil profundo” ao qual a direita adora se referir (eu passei uns 8 anos aí antes que me perguntem se eu conheço) e como esses alunos chegam ao Instagram e ao YouTube. Ironicamente, esse é um problema de “estetismo” segundo Mário Vieira de Melo, a desconexão com a realidade de quem mais precisa dos seus talentos.
Por não ter essa noção, ele deve ficar exasperado com a proporção inversa entre liberdade de educação e o resultado que ela tem dado. Eu mesmo tenho dezenas de alunos que vieram do Guilherme Freire, cujo conteúdo eu não consigo tolerar por mais de dois minutos. Mas eu sou mais burro que o Ronald e acho que a solução está antes no intelectual que precisa encontrar a sua plataforma e modo de comunicação adequado a si e ao assunto do que abandonar quem mais precisaria de alguém honesto aos carniceiros de charuto e gola rolê.
II. As armas do marketing
Na segunda parte, o livro ataca comportamentos muito conhecidos dos meus leitores.
O primeiro é a humilhação dos seguidores, o “gatilho do desprezo”, para gerar mais impressão de autoridade e autossuficiência no sentido girardiano. Ao menos no IG, creio que ele tem razão e foi o Italo Marsili quem lá em 2018 começou com essa postura de “psicólogo sincero” arremessando umas verdades para o entretenimento maior de quem não fez a pergunta e para o sofrimento de quem a recebeu. Claro, tudo para o bem do seguidor. Eu concordo com o Ronald aqui:
O segundo é a miragem do “viver do digital” que o intelectual fantasia como a última saída antes de reconsiderar voltar para a faculdade. Não que ela não exista, eu mesmo vivo do digital. A questão é que da forma como ela é vendida dá a entender que não haverá esforço e que você só vai trabalhar quando tiver algo importante a dizer. No caso do intelectual, esse é um sofrimento diário, porque como ele vê a si mesmo com muito rigor, é improvável que ele tenha algo interessante para dizer todos os dias no Instagram. É improvável ainda que ele tenha algo interessante para compilar a cada 2 meses em um curso digno de ser pago pelo salário mínimo brasileiro.
No entanto, não há tempo. Ele tem um “negócio digital” e um negócio depende de ofertas e ofertas dependem de produtos. Então, porque ele se vê numa posição dolorosa de ser ao mesmo tempo intelectual, professor, empresário e comunicador, ele deixa a régua cair. Começa a produzir cursos muito ruins e muito oportunistas.
O terceiro comportamento é algo que os leitores desta newsletter conhecem como a “ideologia do sucesso”. Um fenômeno típico da classe média, que por não ser nem muito rica nem muito pobre, não sabe muito bem qual é o seu lugar e portanto é o alvo preferido dos coaches.
O sucesso não é mais uma consequência, boa ou má, de atitudes tomadas em busca da realização de um objetivo, mas da conquista de poder material.
Por esse motivo, o fetiche de transformar tudo em que bota as mãos como alavanca financeira, o intelectual do Instagram, até quando inteligente e bem-intencionado, precisa dar as lições “práticas” do que ensina. O intelectual aí demonstra um medo de perder relevância pública ao não posicionar o seu interesse como algo que vai ajudar imediatamente a sua audiência. Nesse sentido, o Ronald acerta novamente:
O autor também percebe que está até um pouco atrasado e já se defende:
É aquele movimento freudiano bem conhecido do narcisismo das pequenas diferenças, o “antiguru” é em geral um guru de sinal trocado, que tenta oferecer uma alternativa vendida exatamente com a mesma linguagem de quem o critica. Muitas vezes nem a coragem de nomear os tais gurus ele tem. É assim “contra os gurus”, como um inimigo onipresente e invisível.
Aqui o Ronald de fato apresenta a sua obra, este livro, e não um curso de “vida intelectual: o original, recuse imitações”, mas infelizmente não apresenta nenhuma solução.
Eu acho que essa solução precisa de sinceridade, como ele afirma, mas precisa de pretensão também. Certa vez, ouvi David Bowie, numa entrevista, recordar que, quando jovem, carregava consigo livros de bolso de existencialistas franceses porque queria parecer um intelectual. Ele os guardava no bolso do casaco, certificando-se de que o título ou autor ficasse visível para os transeuntes. Foi, em retrospecto, ridiculamente pretensioso. Mas em algum momento, disse ele, começou a lê-los e realmente os achou interessantes. Tanto que eles iriam influenciar abertamente sua obra musical.
A pretensão pode ser vista como uma tentativa fracassada de seriedade (aqueles que insistem, de forma bastante estridente, em ser despretensiosos e “pé no chão” ficam assustados com o fracasso, com a seriedade ou com ambos). Mas também pode ser visto como uma ponte para a seriedade ou um adiantamento, um empréstimo. Você não pode se preocupar muito se as pessoas pensam que você está se adiantando ou indo mais rápido do que deveria. Do contrário, não sairá do lugar.
O crítico George Steiner, muitas vezes rejeitado como pretensioso pelos empiristas anglo-saxões, odiava a expressão Come off it, “larga mão, deixa disso”, que ele considerava coisa inglesa. Beethoven não teria composto sua Nona Sinfonia, Michelangelo não teria pintado a Capela Sistina, se tivessem ouvido alguém dizendo "Ah, pare com isso", disse ele. E eu acho que eles podem ter ouvido. Mesmo grandes artistas podem ser vulneráveis à acusação de pretensão, já que a maioria deles em algum momento se sente uma farsa; em algum momento, a maioria deles é.
Brian Eno, que já trabalhou com Bowie diversas vezes, sugeriu que “pretensioso” deveria ser um elogio: “A suposição comum é que existem pessoas ‘reais’ e outras que fingem ser algo que não são. Também existe a suposição de que há algo moralmente errado em fingir.” Pelo contrário, ele diz: “Fingir é a coisa mais importante que fazemos. É a maneira como fazemos nossos experimentos mentais, descobrimos como seria ser de outra forma.”
Não estou falando fingimento que Ronald denuncia mais à frente, particular dos fascinados por René Guénon e pelo chatíssimo Julius Evola:
Eles não são pretensiosos o suficiente. Suas ambições são pequenas e se contentam com a profissão de decifrador premium de simbolismos ocultos.
Já Bowie passou a década de 1960 fazendo imitações pobres das estrelas pop que ele queria imitar, cumprindo uma sequência impressionante de cópias fracassadas. O problema, como sabemos agora, não era falta de talento. É que ele não estava sendo pretensioso o suficiente. Ele não estava ousando se tornar algo ou alguém completamente novo. Foi só quando ele arriscou o ridículo e se inclinou para o art pop que ele criou Hunky Dory e Ziggy Stardust. A partir daí, ele nunca mais parou de fingir ser algo que não era.
Sei que essa não é uma solução que agradaria ao Ronald Robson, mas eu mesmo comecei com a pretensão de ser artista, gênio e megalomaníaco. Eu nunca quis ser menos do que tudo.E mal conhecia o português. Talvez um pouco de pretensão criadora não faça mal a quem aborda a cultura de cabeça baixa. Creio mesmo que as suas sugestões nas últimas três partes do livro são úteis e verdadeiras a quem quer ter senão uma “vida intelectual”, um interesse intelectual genuíno.
De todas elas, a mais importante é certamente a que desenvolve a frase de Schelling, com a qual ele abre a terceira parte, “estude apenas para criar”. Entre nós, gente meio marqueteira, meio inteligente, é comum o adiar eterno para se começar qualquer coisa. Outros, menos escrupulosos, começam antes, até porque são incapazes de avaliar a própria incapacidade e ganham o salário de quem se arrisca. Diz ele:
Para nós esse risco é impensável. Existe até um gênero de comediantes sem qualquer status intelectual que fazem uma bela carreira dizendo ao seu público exatamente o que ele quer ouvir sob o pretexto de comentário social, uma carreira que desabará no dia em que ousarem opor-se ao preconceito do seu público-alvo.
Como observou Graham Linehan na sua excelente autobiografia, Tough Crowd, o trabalho de um bobo da corte ou de um comediante é dizer a verdade e eles sempre gozaram de licença para dizer o que os outros temem dizer, como vemos em Shakespeare. Sem essa honestidade, eles não têm nada. Eles não são nada. Eles não podem querer ser coisa alguma exceto uma distração.
Para o Contra a Vida Intelectual, não há saída conveniente para o intelectual de Instagram, uma vez que os seus infoprodutores sacrificam sua curiosidade intelectual e sua honestidade para os aplausos e o pix da multidão. A maioria inconsciente de que a sua autonomia é ilusória e dependente da audiência.
Hoje temos um sistema de ensino público em que os professores são reféns dos alunos, um sistema privado em que os professores são babás dos alunos e um sistema digital em que os professores são garçons dos alunos. O restaurante é de luxo e os garçons são elegantes e solenes, mas não são os garçons que sustentam um negócio.
Por isso são os alunos que ditam aos seus professores os valores e opiniões e exigem um aviso antes que alguém ouse dizer a verdade. A verdade magoa e se não magoar os personagens deste volume, ao menos vai prevenir quem lê-lo agora de se tornar um personagem do volume seguinte.






















Mesmo com sono, fui inventar de ler esse ensaio. Não precisei nem de café pra terminar a leitura e ficar reflexiva 🥹
Livro polêmico e reflexão necessária. Dele, absorvi o sentimento de que não preciso sentir estar agrilhoado aos ditos indiscutíveis do meio, mas posso andar livre o meu próprio caminho. Excelente análise! Sejamos pretensiosos.